Era uma vez um menino que cresceu e virou um adulto mas nunca perdeu o seu jeito de menino, e virou um cara que era um eterno apaixonado pela vida, pelas pessoas e viveu muitas paixões. O tempo foi passando e sua convivência com o mundo foi modificando seu coração, ele foi se acostumando com as coisas do dia a dia, foi aceitando que nem tudo é como queremos e que as decepções fazem parte da vida de todos, e isso tudo foi deixando seu coração “vidrificado”, transparente e reluzente, mas duro como quatzo... Lá dentro, ficavam presos os seus sentimentos mais íntimos e preciosos, e ninguém jamais poderia imaginar, que dentro daquele coração haviam tantas coisas, tantas incongruências, tanto amor e tanto conflito... Um dia sem perceber, perdeu o seu coração de vidro... e nem sentiu falta. Afinal já estava sem nada dentro e não era mais um coração caloroso. Como não tinha mais coração, dentro de pouco tempo, ninguém mais o viu, ele ia e vinha para todos os lugares mas nunca estava presente em lugar nenhum, nunca estava verdadeiramente sentindo o que fazia. Seu coração perdido, ficou sendo jogado de um lado para outro, sem rumo e sem parada. Nas ruas todos passavam por cima e nem notavam, alguns poucos o viam mas não achavam que valeria a pena pegá-lo, pois de tantos maus tratos foi ficando com má aparência, cheio de riscos profundos e lascas. Sua cor foi se esvaindo e ele foi ficando pálido e transparente. Suas formas ficaram tão deformadas que mais parecia uma pedra sem valor. Chegou a cair nas mãos de uma exuberante mulher feita de plástico com um coração de aço, mas a pobre armadura, nunca tinha visto algo semelhante e não sabia o que fazer com um objeto tão sem valor. Do outro lado do universo, havia uma encantadora fada de nome Magia. Apesar de seus poderes, Magia se disfarçava da mais comum das mortais. Só os puros de alma conseguiam ver e reconhecer seu encanto misterioso e fascinante e até meio hipnótico. Ela também já estava num processo avançado de vidrificação de seu coração e da mesma forma também não se dava conta disso. Numa madrugada caminhando pela rua a sua própria procura, Magia achou um objeto reluzente, empoeirado, alguns riscos e lascas, mas ainda assim reluzente, seu brilho meio azulado pulsava, como que clamando por socorro. A fada Magia, que ainda tinha muito amor preso dentro de si louco para sair e se apaixonar por alguém que valesse a pena, apanhou-o por mera curiosidade. Gostou de suas formas... sua textura... seu peso... sua temperatura... e apesar de imóvel o objeto as vezes parecia se mexer, quase pulsar... era só não olha-lo e ele parecia se mexer, fixando o olhar, ele era imóvel. Magia então achou que seria agradável guardar aquele objeto reluzente, transparente e empoeirado... quem sabe uma limpeza, um lustro e ele poderia se tornar um enfeite de casa, ou até um objeto de sorte. Quem sabe ! com toda aquela luz refletida,... alguma energia teria que ter, quem sabe não era um daqueles cristais energéticos... Guardou-o em sua bolsa..., ali ele ficou por alguns dias, esquecido e adormecido, repousando. Um dia a magia, cansada dos desencantos de tentar ver milagres onde não existem, jogou sua bolsa sobre um tampo de vidro... e ouviu um forte ruído... como vidro se estilhaçando, forte, muito forte, se assustou e pensou que seu vidro havia se quebrado. Rápido correu para ver, e... nada... nada aconteceu... então..., ficou pensativa por alguns instantes e... lembrou-se do objeto, --- Então foi ele que se quebrou... !! Ao verificar, também nada aconteceu... foi só o susto, mas o objeto chamou sua atenção, pois ele já não era tão reluzente... --- Será que se estragou? Perguntou ela. Sem resposta, resolveu restaurar seu brilho e limpá-lo, já que ainda não o tinha feito,... Só um pouco de sabonete e espuma já o deixaram com melhor aparência,... os riscos e lascas já não apareciam tanto... e seu brilho voltou... mas sua transparência não melhorou, ao contrário... ficou como que cheio de uma névoa muito branquinha quase rosada... Sem se importar com as mudanças, Magia o coloca em sua cabeceira, e continua com sua vida... Mas algo em seu intimo lhe diz que as coisas já não são as mesmas, algo mudou... mas o que? Sem tempo e com seus sentimentos reluzentes como diamante, não conseguiu entender o mistério, nem tinha por que já que as mudanças pareciam para melhor ... e só procuramos entender o que estamos perdendo ou o que não esta indo bem. Uma madrugada ao se deitar, depois de muito sonhar acordada, notou que seu objeto estava novamente empoeirado. Ela já tinha algum carinho por este seu companheiro de cabeceira que a viu esconder lágrimas, a viu sonhar com coisas lindas e a viu sorrir. Já existia uma ligação entre eles. Então ela resolve novamente cuidar dele, ao pega-lo e leva um susto, pois ele já não era tão frio... e pensa : -- “ este objeto parece ter calor próprio... “ Mas achou que poderia ser só uma impressão, e dedica-se à limpeza e quando já bem limpinho... algo chama sua atenção... pois os riscos e lascas quase que sumiram por completo, mas sua transparência novamente havia diminuido... e agora já estava perdendo o branco e ficando rosa bem clarinho... e mais quentinho... A vida de Magia foi se seguindo, muitas mudanças acontecendo em seu interior... em sua vida... seu objeto continuava se alterando, agora já estava com os cantos arredondados, se não fosse por um alongamento em um dos lados, até se parecia com um bumbum sem pernas... sua cor já era de um rosa muito vivo e em seu interior uma névoa muito vermelha parecia crescer... parecia até pulsar... Magia passou então a andar com o objeto em seu bolso, aquele do casaco que fica no lado esquerdo do peito, pertinho de seu seio... O dia todo o Objeto que recebeu o carinhoso apelido de “Coração” a lembrava de sua existência, ora lhe irradiando calor, ou lhe recitando poesias bem baixinho que ela nem se dava conta que era ele que dizia... ora dando a impressão de pulsar dentro do bolso, meio que pulsando e roçando em seu seio... E ali ficou durante a algum tempo, ela trocava de roupa e o transportava de um bolso para outro, sem prestar muita atenção no que fazia. Como estava sempre dentro do bolso, não tomava poeira, e não exigia cuidados, mas mesmo assim Magia resolveu cuidar daquele “coraçãozinho”... e ao terminar... uma enorme surpresa... sua forma era um perfeito coração, mas um coração de vidro e aquela névoa vermelha havia se transformado num ser... um ser humano... sim lá dentro..., com as mãos grudadas na superfície... tentava falar algo..., gesticulava, fazia caretas e apontava coisas. A princípio Magia não conseguia entender o que ele dizia... mas eles já estavam muito ligados e como num passe de mágica, criou-se uma sintonia entre eles, que um quase adivinhava os pensamentos do outro, poucas palavras significavam muito... O tom de voz de Magia soava como música, acalentando os mais profundos desejos do pequeno ser, que já tinha recebido o apelido de “Doce”, pois era a única coisa que ele conseguia retribuir ao que Magia lhe dava. Tudo que ele podia fazer para adoçar os sonhos dela, ele fazia c/ o delirio de prazer. A ligação entre eles foi crescendo, “Doce” preso dentro de seu coração... louco por liberdade, para sair e realizar todos os desejos de sua “Ama”. Pois tudo estava levando a crer que “Doce“ era um gênio, não da lâmpada como Aladim, mas um gênio preso num coração de vidro. Em suas conversas, alias deliciosas conversas, eles sempre sonhavam e faziam planos com o dia que poderiam estar “plenamente” juntos, corpo e espírito, pois até então eles só estavam unidos por seus espíritos, Quando se perceberam que se gostavam e um ajudava o outro, cada um de sua forma. A energia cresceu muito... eles se falavam até por telepatia... mas não podiam se tocar, pois ele estava preso. Então Magia lustra esperançosa o mágico objeto para libertar o mago, ali trancafiado. Sem sucesso, Magia continua sua vida, sempre com “Doce” bem pertinho do coração. Parece que como numa obra do destino, ele lhe trazia sorte em suas coisas. Era tanta a vontade que “Doce” tinha de vê-la feliz, que dava certo, a sorte estava sempre ao seu lado, exceto por uma coisa, a vidraça ainda os separava. Eles tentavam de tudo para quebrar aquele invólucro, mas nada dava certo. As vezes Magia pensava que era culpa dela, mas não era, era “Doce” que não conseguia se libertar de seus limites e romper as barreiras. O tempo foi passando, Magia se cansando... “Doce” se modificando... crescendo, aprendendo, e algum tempo depois... Num dia que “Magia” estava querendo algo que nem ela sabia bem o que... ou intuitivamente sabia exatamente o que queria. Pega em seu bolso o coração de “Doce” e fica por um longo tempo olhando-o, e era retribuída por seu olhar. Sempre com toda a doçura que ele tinha para lhe oferecer. Então ela conversa com ele, conversa como olhar, com os olhos, com o coração. Ele retribui e bastava que se olhasem nos olhos para se comunicarem. Eles se entendiam e se queriam demais. Aquele pequeno ser ali aprisionado então lhe dedica umas palavras do mais puro desejo por ela. Dizendo : O Mago A ternura e atração era tanta que do cantinho do olho direito começa a se formar uma pequena lágrima, vai crescendo, começa a escorrer por seu rosto, era uma lágrima diferente pois não era de tristeza, era da mais pura essência dela, desprende-se de sua pele e como que desafiando a gravidade, lentamente vai descendo como que flutuando. Ao tocar o objeto vidrificado, ffssssss... O objeto começa a se disolver e a gerar uma fumaça meio avermelhada, o serzinho ali aprisionado começa a pular de uma lado para outro já liberto, gritava de alegria, a fumaça cresce e domina o ambiente e como num toque de pura “Magia”, o gênio toma forma humana, com tamanho natural, voz natural e um coração batendo dentro do peito... cheio de emoção, cheio de sentimentos aprisionados a muito, prontos para serem sentidos... Dissipada a névoa, seus olhares novamente se cruzam e se segue um alucinado abraço, muito apertado e acompanhado de muitos soluços, lágrimas e suspiros de ambos. Seu almejado encontro havia se concretizado... Muito tempo se passou até que eles pudessem reaprumar seus sentidos, o calor de seus corpos se atraia como magnetismo, suas mãos quase não acreditavam que estavam tocando o corpo de alguém tão esperado,... suas respirações foram se abrandando bem lentamente, até que eles conseguiram novamente se olhar, Seguiram-se então muitas palavras de calor, muitas lembranças de referencias lúdicas que se trocaram durante muito tempo, o universo reagia a seus sentidos criando ambientes utópicos. Em suas mentes as cores dançavam como borboletas na primavera, as estrelas surgiam do nada e em seguida, para lá se dirigiam novamente, De lugar nenhum surgiam brisas e ventos que remexiam cortinas, e arrepiavam seus corpos, o absoluto silêncio era quebrado pelo barulho do mar quebrando ondas nas pedras, que só podiam ser ouvidos dentro de seus corações. Fizeram sexo como loucos amantes, a noite foi pequena para tudo que eles queria viver naquele momento. Entre eles tudo era permitido, não haviam barreiras para demonstrarem o quanto eles se desejavam e quanto queriam se verem felizes e satisfeitos. Eles se amaram tantas vezes quantas estrelas existem nos céus. Finalmente “Doce” estava liberto. Juntos, “Doce” e ‘Magia”, formaram uma dupla de amantes dos sentidos, pois nada lhes escapava, fossem músicas, pássaros cantando, a natureza e todos os seus caprichos, as pessoas que os rodeavam... tudo passou a ter um colorido diferente, ora cores fortes e berrantes ora tons pastel, ora tudo junto... Eles vibravam como um só ser, que ficou conhecido como “ a mais Doce Magia”. A partir dai, suas vidas nunca mais foram as mesmas, e o universo parecia celebrar o encanto que os ligava. Como tudo na vida, nenhum deles sabia o que os esperava, só sabiam que a energia ali criada, jamais poderia ser quebrada... estando eles juntos ou não... ambos sentiam no mais profundo de seus seres que tudo poderia acontecer... menos a quebra daquela corrente espiritual... os momentos ali criados, entraram para a história do universo, pois “a mais Doce Magia” como aquela, só poderia acontecer a cada 1000 anos no mínimo, só poderia ser assim, pois se fosse comum, o mundo seria muito diferente, talvez até como todos nós sonhamos...


Maurício R. Soares