Uma manhã, eu acordei eufórico, pois era o meu primeiro dia de aula. Tomei um banho e me vesti como um furacão, tanta era a ansiedade de ir à escola. Jamais eu poderia imaginar que neste dia eu iria conhecer fatos que poderiam mudar toda uma vida. Na escola, descobri um mundo novo, esta nova forma de estudar para mim era deslumbrante, eram vários professores, diversas matérias, enfim tudo tão dinâmico que hoje, 30 anos depois, ainda me lembro de tudo como se tivesse se passado ontem. Algumas aulas com contas, palavras, expressões, até que veio a aula que me hipnotizou por toda uma vida; Foi a aula dos “lugares”, ali eu aprendi que nosso planeta é redondo, que temos muitos mares, as terras são dominadas pelas águas. A geografia, também me ensinou que em nosso planeta existem partes geladas, e nestas partes... ahhh nestas partes ocorrem coisas que jamais poderia imaginar. Naquele dia eu descobri a Aurora Boreal, e fiquei extasiado com o fenômeno e por mais que a brilhante professora tentasse me explicar o que era aquela série de fotos coloridas, eu acho que me recusava a entender a magnitude daquela beleza. Ela tentava me convencer que aquelas cores todas se combinando por longo tempo, se misturando e mudando sempre de nuances, era obra de Deus... eu acreditava, mas ainda queria mais explicações, ela tentava me falar de nuvens, reflexão e refração de luz e não conseguia entender bem as suas palavras, ela contornava e tentava me falar de estrelas e sem resultado, tentou misturar tintas numa tina d’água, e nem assim. Até que num momento de puro cansaço e desespero, ela disse que aquilo era a essência da vida, era a felicidade, era o amor... e foi o único momento que tudo que ela falou passou a fazer sentido, de repente tudo se ligou e ficou muito claro que estranho fenômeno era aquele. Aquelas imagens e aquelas idéias não podiam mais sair de minha cabeça, era como algo querendo me dominar, dirigir meus pensamentos e ações. Tudo que eu falava era Aurora Boreal, tudo que eu procurava para ler também, e todas as idéias e conceitos se ligavam a ela. Os anos foram bem lentamente se passando, e eu fui colecionando toda espécie de material que consegui a este respeito. Eram fotos, matérias de jornais e revistas, livros, fitas de vídeo com histórias de expedições... e colecionava também os meus sonhos de um dia realizar meu desejo em conhecer aquela maravilha, tão desejada. Mais algum tempo foi se passando e algumas imagens substituídas, alguns sonhos também, pois ir até o polo norte não era a única maneira de “Viver” a minha Aurora Boreal, tinha que ser possível outras formas... em meus sonhos, de alguma maneira se fez uma relação lúdica entre obter o êxtase de conhecer a minha Aurora Boreal e simplesmente viver em plenitude o meu tempo, viver livre, viver feliz e viver amando e sendo amado. Esta relação não se formou como num passe de mágica, ela foi se construindo com a minha experiência de vida, com meus desamores, com meus desencantos, minhas desventuras e derrotas, o colorido foi sendo dado pelas minhas vitórias, minhas alegrias, minhas emoções e minhas lágrimas, o clima úmido e frio foi-se construindo por minhas saudades, por minhas carências e meus amores perdidos, o branco do gelo foi sendo aglutinado dentro de mim, pela pureza da alma das crianças, que é cândida como a neve, pelas amizades honestas e pelos amores sinceros que tive. A união de todas estas nuances de cores, devidamente arranjadas, me mostraram que a minha Aurora Boreal, estava dentro de mim... era formada por meus próprios sentimentos, sejam eles gratificantes ou não. Bastava organiza-los de uma forma que ficassem em harmonia com meu interior e com os que me rodeavam. Quando percebi que minha Aurora Boreal era possível, quase explodi dentro de meu corpo. Fiquei irrequieto, agitado, queria fazer tudo na mesma hora, no mesmo dia. Comecei a busca-la em todas as partes, se tornou necessário como o ar que eu respirava, eu tinha que “Viver” a minha Aurora Boreal. Nesta procura, bem devagar fui percebendo que não poderia fazer todas as coisas ao mesmo tempo, eu podia sim todas as coisas, mas uma de cada vez. Então tive que escolher um dos quatro milhões de caminhos possíveis. Naquele momento me pareceu que o conhecimento era o meio mais ágil de chegar ao meu intuito, pois tudo resultaria dali, o conhecimento organizado tudo podia, traria sucesso, traria beleza, traria amor, traria conforto... E me joguei de corpo, alma e pensamento nesta tarefa... só o conhecimento importava, só ele fazia sentido... Mais algum tempo se passou, e de novo bem devagar fui clareando minha visão e notando que só o conhecimento não era garantia de obter a minha meta, Comecei a perceber que a cultura não me traria conforto ao coração, notei que algumas de minhas carências não poderiam ser supridas daquela forma, então resolvi agregar ao conhecimento, a busca do carinho, do afeto sincero. Num primeiro passo, na busca deste alento aos meus sentimentos, já parti por um caminho errado, confundindo o que eu realmente queria com puro sexo... mas a conscientização veio rápido, e foi fácil perceber o que realmente eu precisava muito mais que sexo. Alguns desacertos na procura, e estranhamente, já começava questionar o caminho que adotei para encontrar a minha Aurora Boreal, pois eu estava tentando aliar conhecimento e sentimento, mas muito rapidamente desviei meu rumo e me convenci que o que queria só obteria se tivesse, nesta ordem, sucesso profissional, conhecimento e amor. Nesta empreitada, eu de novo me joguei de corpo e alma, mas hoje vejo que eram metas por demais ambiciosas, e talvez mal ordenadas, pois conciliar tudo era quase impossível, alguma coisa sempre ficava sem atenção. Mas a felicidade majestosa da minha Aurora Boreal não me saia da cabeça, era impossível não perseguir este sonho. No meio deste caminho, alguns tropeços provocados pelo excesso de empenho em algumas áreas, provocaram rupturas sentimentais, e descobertas de novos horizontes, novos caminhos, e de um grande amor, um amor daqueles que não se esquece, daqueles que se acredita... Mas o sucesso profissional convivia mal com esta grande paixão, influenciado por meu meio, resolvi que para chegar ao polo norte e ver as minha cores fascinantes da felicidade eu teria que abrir mão de algo, e fiz minha escolha, trocando uma paixão por algo mais calmo, sereno e seguro. Nesta escalada a caminho do fascínio do Polo Norte, eu andei por planícies, subi morros, atravessei rios, entrei em cavernas escuras úmidas e frias, dormi em florestas, passei noites e noites em vigília, escalei montanhas e picos, descansei em vales; conheci os donos do poder, fiz amizades com os anjos, mas sempre estava sozinho, sempre dormia com frio, sempre implorando por uma mão amiga que pudesse me dar alento nas horas de angústia. Cheguei bem pertinho do ápice da minha Aurora Boreal, cheguei a vê-la, suas cores, cheguei até a montar um cavalete com uma tela, distribui as tintas ao meu redor, fiz experiências com meus tubos de cores, e quando estava ousando a primeira pincelada... tudo se inverteu, as cores mudaram, o chão sumiu, os ventos eram fortes, tão fortes que cortavam, e quando me dei conta, eu tinha sido levado em menos de um segundo ao ponto inicial. Teria que recomeçar minha busca, teria que recomeçar meu sonho... mas como... se o sonho agora era outro... pois fiquei marcado pelos cortes do vento, e doía só de pensar que para ir de novo ao meu paraíso, eu teria que enfrentar os mesmos caminhos difíceis, solitários e a recompensa final poderia ser breve demais, não recompensando os esforços. Numa revisão dos pontos que deveriam ficar para a posteridade em minhas experiências, notei que a maior pena foi a caminhada solitária, pois todo o resto tinha valido, tudo serviu como lição, exceto a falta de cumplicidade. Esta doía... doía demais... o apoio que tinha era bom, era generoso, era até carinhoso, mas não era caloroso. Talvez este seria o preço que teria que pagar por ter optado pela segurança ao invés de paixão. O tempo foi caminhando em seu curso, eu gradativamente curando meus cortes, e reiniciando a minha escalada, desta vez procurei caminhos mais suaves, talvez mais demorados, mas com riscos menores, menos abismos e menores alturas, mas a caminhada continuava dura e solitária não por não ter companhias ou com quem conversar, mas por não ter uma cumplicidade com alguém, ou alguém que nos fizesse esquecer os motivos de tristezas ou alguém que se possa ter absoluta certeza que não se importa muito com suas vitórias ou derrotas, simplesmente torce porque te fará feliz, esta era a verdadeira solidão, aquela que sentimos no meio de muita gente. Os sentimentos foram se acostumando com isso, quando olhava no espelho e via os cabelos brancos aumentarem, eu achava que tudo fazia parte de um contexto em que com o passar dos anos, o nosso corpo vai se modificando, se ajustando e diminuindo limites, perdendo capacidades e por conseqüência, nossos sentimentos deveriam acompanhar, nosso coração iria ficando endurecido, perdendo a capacidade de se apaixonar, de amar e de sentir que podemos ainda ter este direito. Estes desalentos todos, foram me fazendo pensar que alcançar a minha Aurora Boreal, era pura utopia, coisa de sonhadores e impossível de atingir. Com isso as ações foram se ajustando a este tipo de pensamento, as buscas já não eram tão ousadas, e a acomodação se instalou no corpo, na alma e no coração. Era uma acomodação que entorpecia os sentidos, dando uma nítida impressão de bem estar, de felicidade e de segurança. E naquele momento a Aurora Boreal seria obter a total ausência de sentimentos, pois com poucos sentimentos, também teremos poucas tristezas. Mas como já dizia um filósofo, que não sei quem é, “tudo que é concreto, tende a desaparecer”, e comigo não foi diferente. Aquela sensação de segurança, e felicidade foi gradativamente se transformando em vazio, em vácuo... pois a ausência de sentimentos começava a se mostrar como algo já não mais reconfortante, mas algo inicialmente incomodo, depois como algo angustiante, mais tarde como algo doloroso até que se tornou algo sufocante. Esta ausência de emoções foi se tornando algo muito grande, preenchendo todos os espaços, todos os cantinhos de minha alma, a tudo acinzentando, a tudo esmorecendo e tirando todos os brilhos. E num momento de obscuridade, eis que surge os primeiros feixes de luz de minha verdadeira Aurora Boreal. Numa noite despretensiosa e distraída, entra em minhas entranhas uma estranha, vestida numa nuvem, com ares de chama, e cheiro de mel. Invade os meus becos, abre todas as portas, vasculha todos os armários onde escondia as minhas mais preciosas fantasias, e remexe todos os lixos começando uma faxina geral. Me fazendo, afastar todos os móveis, levantar todos os tapetes e olhar tudo que sempre escondi de todos, me fazendo esmiuçar tudo que sempre fechei os olhos. As noites de esboço das verdadeiras Auroras, foram se seguindo, os sentimentos aflorando, e eu me assustando, e me flagrando sentindo coisas, que já achava não ter mais direito, me surpreendendo sentindo coisas que já não me achava capaz de sentir. A medida que delineava como poderia ser a realização de minhas antigas esperanças de ver as mais belas cores, os sentimentos borbulhavam dentro de meu peito, provocando explosões extremas de choros e alegrias. Do outro lado da nuvem estava também alguém muito sensível, com tantas emoções presas dentro do peito, que elas saiam como em torrentes de pura lava, as vezes aquecendo, as vezes queimando, mas sempre com um colorido único, especial e inesquecível. O que me deixou quase em pânico, pois estava se tornando real a minha possibilidade de conhecer a minha Aurora Boreal... E isto era apavorante, era terrificante, pois se fosse verdade, minha vida toda teria sido em vão, inevitavelmente concluiria que minha vida toda teria sido em vão... por procurar as coisas erradas nos lugares errados, com as pessoas erradas. E este seria um questionamento explosivo, pois poderia provocar a destruição de tudo que foi construído, mas também poderia provocar a reconstrução de tudo, com muito mais sabedoria, verdade, beleza e prazer,. Veio o primeiro contato imediato, pareciam dois extra terrestres, com mensagens cifradas que queriam dizer: “Não tenha medo, sou de paz, só quero amor”, “Não se preocupe, não quero te fazer mal”, “Não precisa se defender pois não quero te atacar, relaxe”... Este contato, tatuou seus corações com flores, e impregnou com um perfume de pele que jamais se dissipou. Veio o segundo contato, este foi mais profundo, mas eles não estavam ainda maduros para viver a intensidade das coisas que viveram. As cores muito fortes e Brilhantes do por do sol do ártico, ofuscaram seus olhos, suas mentes e seus corações. A emoção os abateu, eles quase se destruíram, quase se afastaram de tanta vontade de se aproximar, quase apagaram suas memórias de tanta vontade de não esquecer... Criaram coragem, e veio o terceiro contato... ahhhh o terceiro contato... este sim foi pura fascinação, A tão esperada Aurora Boreal tinha se mostrado... suas cores, suas formas, seu cheiro, até sua magia... mas naquele momento ficou claro para ambos que era uma união tão forte de energias que levariam ainda milhões de outros encontros para poderem explorar todos os detalhes de todo o êxtase daquela união. As energias pairavam no ar como anjos espalhando o mais perfumado dos bálsamos sobre seres abençoados. Por alguns momentos a paz se instalou no ambiente, tudo vibrava com perfeita harmonia e beleza. Vieram então outros contatos, muitas turbulências sempre acompanhavam a mágica das cores árticas, muitas incertezas se instalavam por todos os lados, mas a Aurora Boreal, sempre vinha, sempre alegrava... sempre pacificava seus temores. A Aurora Boreal deles, passou a ser necessária a vida, essencial como o próprio ar... A cada visita ao local de melhor vislumbre do fenômeno de minha busca, as dificuldades eram grandes, grandes eram as escaladas de montanhas, o retorno após as visões mais hipnóticas, eram sempre por campos gelados, úmidos, escuros e solitários. O tempo foi novamente avançando, e... bem... o depois ficou a cargo do pintor maior de todas as paisagens, de todas as Auroras Boreais, que é Deus. Ele ficou de terminar este quadro, de compor a harmonia das cores. Mas seja qual fosse o rumo que ele resolvesse dar aos fatos, uma coisa era certa, a Aurora Boreal realmente existe, e esta constante mente mudando.


Maurício R. Soares