Recobrando a memória

     No dia seguinte foram a procura da tal rua, era em outra cidade e foi preciso algumas horas de viagem. Um pouco perdidos e andando pela cidade de São Paulo, muitas novas recordações vinham a mente de Milord, mas nada que pudessem usar como chave do passado.
Chegaram e tal rua, estacionaram o carro e ficaram andando e olhando para ver se encontravam a tal empresa de sua lembrança, até que ele parou e ficou olhando aquele prédio imponente e luxuoso, ficou ali por muito tempo deixando as lembranças se ordenarem, até que ele abaixou a cabeça como se aquelas lembranças pesassem uma tonelada. Uma lágrima escorreu de seus olhos, Leonor estava em silêncio respeitando aquele momento só dele, e ficava imaginando o que tudo aquilo significava.
Aproximou-se, um carinho em suas costas e com doçura segurou seu queixo e levantou seu rosto beijando a lágrima que lhe percorria a face. Não emitiu uma palavra sequer, só quis deixar claro que estava ali para ajudá-lo sempre.
Milord sem nada dizer, voltou a olhar o chão e pediu para ir embora, Leonor simplesmente obedeceu sem nada perguntar, a curiosidade a corroia por dentro, pois ela sentia no ar que a chave do passado foi encontrada. A volta foi um silêncio total, ele não dizia nada, seus olhos ficavam perdidos no horizonte e as lágrimas corriam sem parar, ele imóvel, respiração suave e as lágrimas a correr sem parar.
Chegando na praça ele pediu para descer, Leonor parou o carro e o acompanhou até seu posto de sonhos.
--- Leonor meu amor... acho que encontrei a chave que me abre todas as portas do passado, mas não consigo te falar nada agora. Preciso ficar um pouco só para entender o que se passa, o que foi que eu vivi, o que me deixou assim.
--- Agora não é hora de solidão é justamente agora que você mais precisa de alguém, senão se perderá novamente no esquecimento!
--- Por favor, me deixe só. Ao menos esta noite!
--- Ok, você tem esta noite, mas amanhã estarei grudada em você como um carrapato, não vou permitir que você se aliene de novo, hoje você já tem uma nova vida, você me tem, tem amigos, emprego e moradia, se o teu passado te faz sofrer, abandone-o e viva comigo. Se não puder volte para ele, mas não fuja mais! Já tem um ano que te conheço e sei de suas capacidades e limites, te quero deste jeito que é, pouco me importa a sua vida anterior, te ajudo porque te amo e sei que é importante para você.
--- Ta bem amor... Me deixe, amanhã estarei melhor...
Foi para casa e lá se fechou, só saia para cuidar de seus jardins, ninguém sabia dele e nem o que estava acontecendo, não mais freqüentava o banco da praça que tanto gostava.
Leonor o apoiava e sempre estava ao seu lado, naqueles dias ele não falava mais que bom dia e boa noite, e Leonor numa tortura interna querendo saber o que estava se passando,
Passaram alguns dias e numa noite Leonor escutou bater em sua porta, foi atender, era Milord, um pouco abatido mas sem perder o charme, eles se olharam longamente como se estivessem revivendo tudo o que se passou com eles, até que ele se joga nos braços de Leonor e chora como uma criança, ela o aperta contra seu peito para que se sinta protegido e que saiba que ela sempre vai estar do lado dele, em seguida dá-lhe um longo beijo cheio de carinho e muito amor.
Ele se acalma, olha em seus olhos e pergunta a ela se quer saber o que ele recordou de sua vida, ela responde que sim, então se sentam no sofá e ele começa a contar.
--- Eu era um empresário bem sucedido, aquele prédio que fiquei olhando era minha empresa e de um sócio que pensei que era meu amigo. Sou casado com uma linda mulher e tenho três filhos.
Se cala por alguns instantes e começa a chorar novamente, Leonor lhe abraça e tenta acalma-lo. Ele continua a falar:
--- Eu vivi muito bem com ela por alguns anos, mas numa dada época às coisas andavam difíceis, não tínhamos dinheiro para manter o padrão de vida e passamos até fome para tentar manter alguns bens que tínhamos. E nossa convivência ficou muito difícil, ela me culpava pelas necessidades dela e dos filhos.
--- Foi a que resolvi montar a empresa. Eu tinha muitos conhecimentos em computadores e algumas habilidades na área comercial. Identifiquei um nicho de mercado e comecei a trabalhar com Internet, fazendo sites para empresas e lojas virtuais. O começo foi difícil e só tinha tempo para o trabalho, pois queria muito voltar a ter um pouco de conforto e estabilidade. E isto abalou ainda mais o meu relacionamento, e acabei conhecendo alguém por quem me apaixonei.
--- A principio Laura, minha esposa não desconfiava, e arrumou um emprego como decoradora, foi então que ela me apresentou o Marcos, que trabalhava com ela e que acabou sendo meu sócio na empresa. Acho até que Laura adorava quando eu sumia para ficar com Gina, meu segundo amor.
--- A empresa ia bem, Laura trabalhando e nosso padrão de vida estava ótimo. Mas eu e Laura cada vez mais distantes, algumas vezes me distanciei de Gina para retomar as coisas com Laura, mas a convivência estava impossível. E eu acabava procurando refugio no colo de Gina.
--- Laura acabou descobrindo e nos separamos. Fui viver com Gina, mas Laura estava disposta a me esfolar vivo, queria tirar tudo que pudesse de mim... Ela foi conduzindo as coisas de um jeito que eu não pudesse mais viver com Gina, os gastos eram tantos que entramos de novo em dívidas. Acabei tendo que voltar a viver com Laura.
--- Foi quando acabei vendo que Gina queria somente boa vida e não o meu amor. O que me doeu demais, pois acreditei demais neste amor e sofri demais com esta decepção e sempre me sentia culpado por perde-la, mesmo sabendo que ela não me merecia.
--- Com Laura, as coisas já não eram as mesmas, mas íamos vivendo, afinal naquele momento tudo que era importante para mim era o dinheiro. Eu achava que em nossa idade era só isto que poderíamos ter. Mas como ela era boa mãe, acabei me apaixonando de novo por ela. Vivia esta paixão à distância e achava que todo amor acabava ficando assim.
--- Os negócios estavam crescendo e não dávamos conta de tudo que tínhamos que fazer, então fizemos uma divisão de tarefas na empresa, algumas coisas eu cuidava e outras, cuidava o Marcos. Ai foi o meu grande erro, pois assinamos eu e meu sócio, procurações com amplos poderes, eu dando a ele e ele a mim.
--- Confiei nele, dei-lhe a procuração e ele se aproveitou disso e me passou quase tudo para o nome dele legalmente e assumiu um monte de dividas para empresa e quando me dei conta, estávamos quebrados.
--- Quando Laura ficou sabendo que eu tinha perdido tudo, passou a me tratar com ainda mais frieza, cada vez mais distante, isso me doeu muito, pois estava de novo apaixonado por ela, era uma mulher exuberante e cheia de luxo, parecia me amar, mas era um amor de luxo, quando acabou o luxo acabou o amor, mas mesmo decepcionado tentei ir enfrente.
--- Comecei a procurar emprego para começar tudo de novo, afinal tinha mulher e três filhos para cuidar, todos os dias saia a procura de emprego, mas sempre que apareciam eram salários muito baixos para meu padrão de vida, os dias foram passando e o dinheiro acabando, pois os gastos eram muitos, com empregados e muitas outras despesas, meus filhos eram minha única alegria, minha filha tem olhos lindos e pele clara, bonita como a mãe linda como uma flor, meu filho também é muito bonito, um amor de filho, meu outro filho é muito lindo também, mas tem olhos muito tristes, não consigo entender o motivo dessa tristeza, mas é uma pessoa muito sensível e muito amoroso comigo.
--- Agora entendo algumas lembranças que tinha e não entendia. Eu sempre gostei de cuidar de jardins e minha filha sempre me acompanhava, aonde eu ia ela estava ao meu lado, conversando, ajudando e entendendo o que eu fazia. Um dia no aniversário de 8 anos dela, eu lhe dei uma caixa de musica para ela guardar uma corrente de ouro que era da minha mãe e eu estava lhe dando. Quando me separei, ela me pediu que guardasse a caixa de musica para não esquecer dela nunca... por isto tenho em minhas coisas aquela caixa de musica... E muitas vezes me lembro do olhar doce de uma menina!
E pergunta Leonor:
--- E suas lembranças com a rosa amarela?
--- Em meu jardim, eu tinha muitas rosas, mas as amarelas eram as mais delicadas, e um dia colhi uma pra dar ao meu segundo amor. Sem saber acertei na flor que ela mais gostava e acabou virando símbolo de nosso amor.
E novamente Leonor pergunta:
--- E você conseguiu lembrar porque perdeu a memória?
--- Sim, eu lembrei. Certo dia depois de andar muito em algumas empresas a procura de trabalho, vinha voltando para casa muito desanimado, pois foi mais um dia de procura sem resultado, parei no farol que estava fechado, quando vi parar um carro luxuoso com um casal dentro, eles estavam abraçadinhos e rindo muito, pareciam felizes, quando olhei bem vi que conhecia aquela linda mulher e aquele homem, era meu sócio com a minha mulher mãe dos meus filhos, nos braços daquele que me arruinou, fiquei louco de raiva e ciúme ao mesmo tempo, não sabia o que fazer e fiquei completamente sem rumo.
--- Quando voltei a mim os carros atrás estavam buzinando porque o sinal estava aberto, olhei do lado não vi mais o carro com o casal, sai com o carro sem saber para onde ir, encostei o carro em uma rua, fiquei algum tempo ali parado, acho que sai do carro e sai andando sem rumo, foi um choque muito grande para mim perder a mulher, um amigo e minha empresa, eu achei que minha vida não tinha mais sentido, não sei como vim parar na praça dessa cidade, ainda não consegui lembrar alguns detalhes, e aqui estou, o resto da história você já conhece.
E ela pergunta:
--- O que você pretende fazer agora?
--- Não sei ao certo, a minha vida mudou, hoje eu sou outra pessoa com outros valores. Minha vida agora é com você, é para você que quero viver, quero me aproximar dos meus filhos, mas não quero perder o que ganhei. Não tenho dinheiro, mas tenho coisas muito melhores, tenho amigos e tenho você!
--- Por favor, me ajude mais uma vez a decidir o que fazer! Aceito tudo, desde que não te perca.
Leonor ficou alguns instantes em silêncio, e perguntou:
--- Laura ou Gina ainda são importantes para você ?
--- A mulher da minha vida é você, quero passar o resto dos meus dias com você! Nunca vivi tão bem quanto agora, me entenda, eu amo você, adoro você e te quero para mim, quero muito!
--- Está bem, vamos com calma então, só pense que você tem filhos que te amam e você os ama, o resto a gente resolve.
--- Ta bem, me da aqui um abraço... Eu amo você! Demais!
No dia seguinte foram para a casa que era dele, tinha um vigia tomando conta da casa, quando perguntou pela mulher dele e os filhos o vigia disse que ali não morava mais ninguém, que a mulher que morava ali tinha mudado há poucos dias para uma mansão ali perto, indicou o lugar e lá foram eles.
Milord perguntou a Leonor se ela queria desistir e voltar, ela disse de jeito nenhum, agora vamos até o fim, vamos resolver tudo.