Explode a Paixão

     Leonor ficou insegura desde o último encontro e começa pensar se este conto de Lord Milord teria alguma coisa com a rejeição que sofreu dele, na noite em que ele lhe fez a poesia, se era uma forma de retomar de onde eles pararam ou se era exatamente ao contrário, se era uma forma de mostrar que ele sabia dos sonhos dela com ele, e estava mostrando que não compartilhava deles.
E esta dúvida a deixa um pouco irritada, pois estava se vendo de volta às emoções daquela noite e ela não queria mais tudo aquilo, ficar mais uma vez ansiosa por não saber, por não ter as coisas sob seu controle.
Mas procura não deixar Lord Milord perceber e procura iniciar uma aproximação mais consistente dos sentimentos daquele homem, que parecia um errante com hábitos de nobreza.
Em sua conversa, Leonor, com toda a sua habilidade, envolvendo Lord Milord, e tirando sentimentos, e pensamentos dele. Com muita paciência ela acaba descobrindo que a rosa amarela lhe traz imagens de um olhar amoroso e lágrimas se ligando ao seu próprio olhar, é de uma pessoa que o seu par, amou muito e tem um sentimento muito forte ainda, só não ficou claro se ainda é amor ou se é somente uma lembrança ou mesmo saudade de alguém.
E lhe ocorre então que a reação do poeta, na porta de sua casa, poderia estar ligada a estes sentimentos ou a esta pessoa. Lhe vem então uma impressão que provoca extremo mal estar, pois ela passa e ter a sensação que esta tirando algo impróprio de alguém. E abruptamente se esfria com o sensível jardineiro, se afasta, e foge de seu olhar. Muda de assunto passando a falar de banalidades.
Lord Milord, sente que algo mudou repentinamente, pois eles estavam se encaminhando para um momento romântico e ele queria muito isso, e sabia que ela também. Nos olhos dela ele sente o que se passa e toca no assunto.
Da sua forma, ele sugere o que esta acontecendo com ela, e tenta contornar, envolvendo-a numa recordação dos momentos em que ouviam música da orquestra. Ela resiste e ele sente muito forte em seu peito um grande medo de perdê-la, ou um medo de não chegar a tê-la. E sem saber como, ele fala:
--- Não... De novo não.... eu não posso de novo perder um grande amor....
E cai recostado no banco duro de madeira. Seu olhar fica paralisado num ponto do chão, olhando o nada e sentia que a sua energia vital havia sido rapidamente drenada, era como se ele estivesse repentinamente exausto, sua respiração era cansada, muito cansada, e em sua memória vem infinitas imagens, com pelo menos duas mulheres diferentes. Ele se via ao lado delas, amando-as, servindo-as, discutindo, e as via virar as costas para ele.
Bem lentamente se forma uma pequena lágrima em seu olho. Leonor nota tudo e só observa, e imagina que ele na verdade não está sem memória, está é escondendo algo.
Mas contem-se e explora a situação com toda a delicadeza que ela merece e se certifica que na verdade ele não lembra das coisas, talvez fugindo de algo, mas o que ?
E nota que ele sofre muito com as coisas de seu passado. Juntando a sua vontade de ajuda-lo, com sua curiosidade e com a sua vontade de tê-lo como seu companheiro, ela se decide jogar-se de cabeça na missão de descobrir a origem do poeta das flores.
Essa decisão ao mesmo tempo a excita e assusta, pois é o primeiro homem que ela sonha ter como seu companheiro e é a primeira vez que se vê cara a cara com o desconhecido e o enfrenta sem receios, na mesma hora reage com um caloroso abraço e ambos não se contém e se entregam aquele momento e as lágrimas correm soltas, como os soluços e surge a primeira jura entre eles.
--- Aconteça o que acontecer, eu estarei ao seu lado para apoia-lo nesta descoberta!
--- Não sei se quero descobrir algo.
--- Estou falando da sua descoberta como pessoa, como alguém que tem uma história e se orgulha dela, como alguém que tem sentimentos lindos e não poderia ter feito algo que se envergonhe, sua sensibilidade jamais permitiria que você fizesse mal aos outros, está em seu olhar, eu estou com você nessa descoberta, pois acho que assim eu também estarei me descobrindo. Você esta me mostrando que eu posso ter uma historia de vida, mas ela não vale muito se não for vista com olhos de bondade e ternura como os seus.
Tenho certeza que se olhar às coisas com os seus olhos, tudo terá formas mais atraentes e verei que a felicidade sempre esteve aqui, eu é que não via. Deixe-me ajuda-lo, assim estarei me vendo como uma outra pessoa, que sempre pude ser, mas nunca consegui.
Lord Milord, não sabe como reagir, nem o que falar, e só diz:
--- Não sei o que lhe dizer, mas o que você disse dá uma linda poesia....
--- Faça o que mais sabe fazer, faça uma poesia, mas faça uma com os seus pensamentos não os meus, uma poesia sua, como as outras, ela dirá o que você sente mas não transforme sua vida numa poesia, algumas vezes você precisa reagir como gente e não parecer um livro sendo escrito.
--- Eu sei o que quer dizer, mas me entenda, acho que meu sub consciente se comunica comigo pelas poesias, sempre que as faço, algo novo vem a minha consciência. Sei que mais cedo ou mais tarde encontrarei o fio da meada e lembrarei de tudo que fiz na vida.
Parou por uns minutos e começou.....

OS PÁSSAROS
Um pássaro traça seu caminho,
Guiado por seus instintos e sentidos,
Às vezes em busca de alimento para o corpo,

Pois seu espírito é livre e disso se alimenta,
Outras vezes em busca de locais onde possa se perpetuar,
Mas quase sempre eles buscam a união de tudo.

Calor... Prazer...
Alimento... Prazer...
Perpetuação... Prazer...
Descanso... Prazer...

Temos muito que evoluir,
Para começar a aprender,
O que eles fazem por intuição,

Ou simplesmente por pura liberdade,
Sempre fugimos de sermos nossos próprios carcereiros,
Só alguns poucos sonhadores conseguem,

Pois sonhar é um mistério,
Só desvendado pelos que sonham o real,
Como um pássaro, todos podemos voar,

Temos tudo para isso, asas, penas e imaginação,
E todos voamos... E não notamos...
E quando notamos... Pousamos... Inteiros e felizes,
Como os pássaros... Somos pássaros por natureza.

Leonor, as gargalhadas o abraça e ficam assim por alguns momentos de pura alegria e contentamento. Era como uma conversa silenciosa e eles estavam se entendendo, estavam assumindo um compromisso de se ampararem nesta viagem interior, e isto os estava emocionando, pois estavam celebrando um pacto de união: “Eles estariam juntos nessa missão de se descobrirem“
A noite já havia lhes dado emoções demais, Lord Milord chega a se oferecer para levá-la até sua casa, agora ele achava que conseguiria vencer as suas barreiras e ter uma noite de amor com ela, seu peito lhe dizia isso, lhe dizia com calor e saudade, era isso que ele sentia naquele momento, um enorme calor e um buraco bem no meio do peito, que era a saudade do olhar de Leonor, ele até estava começando a se achar apaixonado por ela, e uma noite de amor, seria uma boa forma de celebrar esta descoberta e ao mesmo tempo mostrar a ela o que se passava em seu interior.
Leonor usa de sua sabedoria para disfarçar que ela ainda tinha uma pontinha de mágoa pelas vezes que ele não a quis, e diz que naquela noite ela preferiria ir só e que o coração dela não estava acostumado a tantos sobressaltos e que por aquela noite já bastava.
Então ele diz:
--- Esta noite foi especial e creio que algumas barreiras minhas ficaram mais visíveis. E podendo percebe-las, fica mais fácil derrubar. Esta noite foi a noite que divide duas vidas. Uma antes, outra depois e que ele estava com uma estranha e gostosa sensação de leveza, suavidade e alegria e que ele estava como um pássaro ou como um anjo que poderia espalhar a alegria e o perfume a todos que o rodeiam e complementa:
--- Me aguarde minhas emoções estão aflorando numa nova poesia.
Eles se separam, cada um para sua cama, Lord Milord estava excitado demais para dormir e escreve uma poesia para Leonor. Mas para ele a poesia não era suficiente para mostrar o seu estado, ele tinha que criar algo maior, para levar a poesia até ela e então lhe vem a grande idéia.
Numa das noites no restaurante, ele conhece Chicão, o responsável pela programação de uma das rádios da cidade, que lhe convidou a participar de um programa ou entrevista. Logo pela manhã ele o procura e explica que queria ler a poesia no ar para Leonor. Chicão se empolga com idéia e quer levar a coisa ao ar no mesmo dia.
Lord Milord telefona a Leonor, dizendo que lhe preparou uma surpresa na rádio as 14:00.
Ela não podia ouvir neste horário, pois estaria em aula e eis que ai vem outra idéia. Leonor leva a sua classe toda à rádio, pois vindo de Lord Milord, certamente estaria ligado ao seu tema de aula, boa ou ruim, era de literatura que ele falaria.
No horário marcado, todos estavam lá: O locutor, Lord Milord, Leonor, os alunos e alunas, e mais alguns pais e mães.
O que Chicão montou, foi uma entrevista com o forasteiro mais comentado daqueles dias. Anunciado o seu nome, a entrevista se desenvolve aos trancos e barrancos, pois ele não conseguia responder a maioria das perguntas, que sempre focam o seu passado, então Leonor que estava presente, é chamada para falar algo a respeito do poeta e de seus contos.
Anunciado o seu nome como a consultora em literatura e cultura geral da rádio. Ela se sente prestigiada e orgulhosa e apesar de ter sido pega de surpresa, não perde o perfil desinibido, e começa a discorrer sobre os contos e poesias que conhece e que ele põe sempre muito sentimento no que faz e isso a fascina, convidando-o a falar algo e ele começa:

VIAJANTE SOLITÁRIO
Por todos os caminhos
Eu caminho só
Indo e vindo dos lugares
Entrando e saindo das emoções

Viajante como sou vejo de tudo
Vejo sonhos e desencantos
A quem posso reparto minha esperança
Aos outros só um sorriso

Aqui e ali, não tenho parada
Sempre fugindo de mim
Caçador menino, vivo sonhando
Colecionando reflexos de mim nos outros

Buscando paz
Vivo querendo estar onde não estou
Como um pássaro, só quero calor
No peito, na alma e no amanhã

Dá sua mão e vem comigo....
Aquece-me, que te faço viver
E sonhar
E amar .

Após ele terminar, ainda ecoava sua voz preenchendo todos os espaços físicos e mentais, aliada a sua voz, havia uma música de fundo que combinava com perfeição com a sua voz e com o sentido das palavras que ele dizia. Ainda permanecia ao fundo aquela música suave e envolvente, calma e com uma doce voz feminina cantando. (Enya)
Chicão, que era muito experiente em rádio, acena ao locutor para que ele retome a entrevista, mas quando tenta pedir que Leonor diga alguma coisa a respeito do que ouviu, nota que não será possível p/ ela, pois ela esta com lágrimas escorrendo pelo rosto e mal consegue se mexer. É nítido que ela não conseguirá falar, então ele tenta trazer Lord Milord para o microfone.
Agora ele já está mais calmo e consegue falar mais. Não responde exatamente o que o locutor pergunta, pois ele insiste em perguntar coisas de seu passado, e Lord Milord prefere falar sobre seu presente, dizendo como é seu dia, das coisas que gosta e que esta totalmente sem memória, mas que as poesias e contos que vai fazendo, estão lhe trazendo lembranças e que como um quebra cabeças, ele está montando, a procura de quem ele possa ter sido e a peça principal deste quebra cabeças tem sido Leonor.
Pois com sua paciência e dedicação tem sido uma excepcional amiga e confidente, e ele adoraria que ela fosse muito mais que isso, só estava dependendo dela, mas que acreditava que apesar de não ter sido dito, ela corresponderia, pois os olhos dela diziam muitas coisas.
Heleno, o locutor, tenta se embrenhar nas entrelinhas do Lord Milord estava dizendo, numa clara tentativa de usar aquilo tudo como uma fofoca no ar. Mas Lord Milord com toda a sua diplomacia contorna as perguntas impertinentes dele, e não revela mais nada alem do que já foi dito.
A esta altura, o telefone já estava tocando, com pedidos para repetirem o que ele tinha dito, pois muitos queriam ouvir de novo. Heleno, chama os comerciais e promete não só repetir a mensagem após os comerciais, como usar aquela gravação como abertura oficial de seu programa, claro se Lord Milord permitisse. E é claro que ele permite.
Durante os comerciais, Leonor e Lord Milord se abraçam e se beijam, ali, bem na frente de todos. Leonor lhe diz muitas coisas desconexas, pois esta emocionada e tensa, mas fica muito claro que ela adorou todo aquele cenário e o teatro que ele montou para ela. Na repetição da poesia do Vento, eles ficaram se olhando nos olhos o tempo todo, sem emitir sequer uma palavra, as palavras que vinham dos alto falantes, pareciam que vinham do interior deles mesmos.
Terminada a reprise, o programa toma outros rumos, e eles se retiram. Leonor dispensa a classe com os alunos e sai com Lord Milord, a vontade deles é sair dali e ir direto para um lugar onde pudessem se amar, eles queriam muito se tocarem, queriam fazer amor de todas as formas que fossem possíveis, sem parar, até se saciarem.
Lord Milord diz abertamente a Leonor que a quer, de qualquer jeito, de qualquer forma, e não pode ficar pra depois, tem que ser naquela hora, Leonor pede a ele uma hora para se arrumar e se preparar, pois ela queria estar perfeita p/ ele. Muito a contra gosto ele concorda, e sai p/ um banho também.