O Poeta.

    Numa tarde de verão, algumas colegiais resolveram fazer um grupo e tentar descobrir coisas do andarilho, combinaram e foram chegando uma a uma e puxando conversa, querendo saber da vida dele, fazendo perguntas e calmamente esperando respostas, insistiram e não conseguiram nada. O papo foi correndo solto e criando um clima de amizade no grupo levando um bem estar a todos que fazia que os assuntos se aprofundassem e começassem a falar de sentimentos e coisas do coração. Ele se empolgou com o tema, e não se sabe de onde começou a discorrer sobre amor de uma forma poética que deixou as garotas como que hipnotizadas pelas palavras daquele jardineiro que gostava de observar as coisas. Ele falou de amores impossíveis, falou de paixões arrasadoras, falou de estrelas, falou de encantos e magias de uma forma tão encantadora e emocional que todas as colegiais se sentiram nas nuvens com sua atenção. Pediram que ele repetisse algumas frases e poesias, ele não soube fazer igual, fez outras com temas parecidos, mas com o mesmo conteúdo poético. Ora eram histórias que transportavam os ouvintes ao mundo dos sonhos, emocionando como se fossem reais, ora eram poesias com estrutura poética e rima, ora eram poesias modernistas sem nenhuma estrutura, mas carregadas de essência e os mais lindos sentimentos. Terminada a sessão poética, todos se retiraram do local se sentindo como que em estado de graça, todos tinham a sensação de terem estado em algum lugar mágico que tirou todas ansiedades e as substituiu por paz. Tanto as meninas como o andarilho sentiam isso, sentiam que algo diferente aconteceu ali. O andarilho ficou muito tempo pensando de onde vieram todas aquelas idéias, de onde vieram todos aqueles sentimentos, de onde vieram todas aquelas emoções que lhe tiravam o fôlego, o faziam soluçar, mas ele não conseguia parar de declamar. As colegiais ficaram impressionadas e no dia seguinte na escola não existia outro assunto. Foram até a professora de literatura contar o que as empolgava. Leonor, a professora, era uma mulher que se destacava em seu meio, parte por sua personalidade muito marcante sempre centralizando as atenções sobre si pelo seu modo severo de falar, por seus gestos moderados e seu jeito dominador, parte por sua beleza delicada e doce. Era uma pessoa de muita garra e fez sozinha na vida, jamais contou com a ajuda de familiares, ela é que era o lastro de força e apoio de seus parentes. Estava só, mas já tivera muitos namorados, muitos quiseram se casar com ela, mas ela sempre achou que nenhum estava a sua altura. Em seus estudos e profissão ela era brilhante e sempre defendia a tese que na literatura e poesia, a técnica supera de longe a inspiração tanto que já tinha quase dez livros de poesias e contos publicados e elaborados com esta lógica, todos com pequenas edições, pois , dizia ela, “nossa cultura não dá valor ao que realmente tem valor”, “só quem tem berço, sabe reconhecer o que é valoroso” Leonor era uma pessoa enigmática, pois ninguém jamais sabia o que se passava em seu coração, ela nunca administrava sua vida ou sua carreira baseada nos sentimentos, a razão estava sempre a frente dos sentidos. Desconfiada por natureza, jamais acreditava na aparência das coisas e a menos que lhe provassem ninguém era digno de confiança. Sem alternativa diante da insistência das alunas ela aceita ir ver o poeta, mas de antemão tinha uma visão meio séptica da história, achava que não era possível que um jardineiro andarilho pudesse ter uma veia poética tão forte e de boa qualidade, ela achou que as garotas estavam exagerando e julgando mal as qualidades literárias daquele errante. Afinal ela conhecia de literatura, conhecia de poesia, já havia corrido o mundo todo estudando o tema e sabia que para fazer poesia é preciso muita técnica e muito estudo, e um simples andante não poderia ter tudo isso. Reflete um pouco e conclui que não tinha nada a perder com a visita para conhecer o estranho, afinal já tinha ouvido falar dele, como alguém que se emocionava com facilidade, e vivia derramando lágrimas na frente de todos, e que mal poderia um ser tão emocional lhe fazer? Tomou alguns cuidados de reunir algum material de alguns poetas que tinham semelhanças com o estilo narrado pelas garotas, pois queria provar que quando muito ele teria decorado alguns versos e os estaria declamando como sendo dele mesmo. Também levou um gravador para poder guardar suas palavras para pesquisas mais profundas, e poder provar que tudo aquilo era uma farsa. Chegando ao local, as adolescentes logo o rodearam com uma intimidade que parecia que eram antigos companheiros, apresentaram a “mestra” em literatura, como ela gostava de ser chamada, ela se aproxima com uma falsa humildade, querendo desmascarar aquele que ela julgava ser um impostor. Ao chegar bem perto dele, seus olhares se cruzam e como numa explosão surda, ambos se petrificam, congelam por alguns segundos com seus olhares fixos, um no olho do outro. Dentro do peito deles, surgiu uma sensação como a de uma descarga elétrica que fez os corações dispararem, as mãos começaram a suar, os pelos do corpo ficaram eriçados, e os sons pareciam que fugir aos sentidos. Parecia que por alguns segundos tudo parou, reinava o mais absoluto silêncio. Compulsivamente ela cumprimentou-o com um beijo na face e ele a retribuiu com um doce, mas distante abraço. Ninguém notou nada de anormal, só os dois perceberam que aquele encontro acionou algo dentro deles. Ele viu em seus olhos um brilho que se assemelhava ao brilho dos olhos que vieram em sua mente quando olhava a rosa amarela e se ligava diretamente a sua memória, ele a viu como a chave de seu enigma, ela era a ponte de ligação com o seu passado, ela lhe lembrava todas as emoções que ele já havia sentido. Ela via nele uma atração física e espiritual como nunca havia pensado ser possível, ela o via coberto por uma aura magnética que a desconcertava, ela viu nele algo dela mesma. Naquela rápida aproximação corporal ela sente exalando de seu corpo um cheiro que a fez fechar os olhos por um segundo e pensar em sexo. Era como um perfume único que jamais ela conhecera, mesmo depois de se afastar ela percebeu que aquele cheiro se impregnou em suas narinas e ela continuava a senti-lo, a ponta de seus dedos começaram a adormecer, mas ela não quis permitir que aquela estranha sensação continuasse. Em poucos segundos ela conseguiu colocar o seu racional à frente dos sentidos e retomou suas idéias originais de provar que tudo aquilo era falso. Alguns instantes de conversa e o poeta das flores começa a encantar a todos com suas histórias poéticas e poesias. Leonor gravava tudo, e mentalmente ligava tudo que ele dizia a estilos literários e poetas conhecidos. Seus olhos dançavam de um lado para outro como que a procura de algo, vasculhavam cada poro do poeta errante. Juntando todas as suas forças, ela resiste a deixar se envolver por aquelas palavras hipnóticas que ele soltava no ar como um perfume, sem pensar, só ia falando e com sua voz doce e rouca, a todos envolvendo e fazendo sonhar. Mas naquela noite as palavras pareciam mais doces que do dia anterior, pareciam mais emotivas, e mais sensuais. Após algumas horas de um curioso jogo onde as pessoas a sua volta davam um tema e ele saia criando uma estória ou poesia, horas depois, todos numa espécie de estado de graça se retiraram como que caminhando sobre as nuvens, cada um para suas casas. Leonor ficou perplexa com o que viu e ouviu, nela se instalou uma confusão mental que jogava seus pensamentos de um lado para outro, indo do extremo de endeusar aquele estranho ser que hipnotizava pessoas com sua forma de ser e falar, ao outro extremo de acha-lo um farsante que copiava coisas dos outros. E estes sentimentos ficaram transparentes em seus olhos. Ao sair do banco que estava deixou cair seus papeis e gravador e o andarilho a ajudou a pegar tudo, e viu muitas poesias de Fernando Pessoa, Drumond, Vinicius e muitos outros. E ele conhecia todos. Sem dizer uma palavra, ajudou-a a recolher tudo, olhou bem fundo em seus olhos, lhe ofertou um largo sorriso e um beijo na mão e saiu para sua garagem. Em casa, Leonor virou a noite escutando repetidamente as fitas que gravou. Oscilando entre a entrega total aos sentimentos que aquelas palavras mágicas lhe provocavam, e a tentativa de racionalizar o que ocorreu, tentando descobrir quem fez aqueles versos e contos. Por mais que tentasse encontrar algo que pudesse ser classificado como cópia ou plágio, não encontrava nada, revirou livros e mais livros, ouviu músicas e não achava nada de palpável. Só conseguia concluir que se tratava de versos populares. O andarilho passou a noite com um sono de sobressaltos, pois a todo o momento acordava com novas imagens, todas desconexas e sem sentido. Mas perecia pertencer ao seu passado. No dia seguinte, ainda com a alma meio entorpecida, antes de ir ao colégio ela passa pela praça da poesia a procura do poeta das flores, não o encontrou e a decepção foi grande, seu coração parecia ter se mudado de morada, indo parar na garganta, de tão forte que batia. Ela tinha que vê-lo de novo, pois ele não lhe saia da cabeça desde o primeiro olhar, aquele cheiro ainda não tinha se dissipado e sua voz ainda ecoava em sua imaginação. E ele cuidando de seus jardins não a tirava do pensamento, era como um filme se repetindo em seus olhos, o brilho do olhar de Leonor estava ligado a algo em seu passado. No final da tarde todos se reuniram novamente na praça, e veio nova sessão de encantos, só que agora também se juntaram alguns rapazes que também gostavam de poesias e de contos líricos. Todos queriam gravar o que ele falava para depois passar para o papel. As suas palavras mais doces eram sempre dirigidas a Leonor. Leonor estava numa dura batalha entre emocional e racional, não sabendo se o admirava, se o invejava por aquela veia poética ou se persistia na tentativa de desmascará-lo. Não deixava ninguém notar, ninguém percebia nada. Nem mesmo as trocas de olhares entre eles. As evidências acabam deixando-a sem saída, ela reluta, mas começa a admitir que o conteúdo poético das suas palavras. A sessão de contos e versos se tornou então uma rotina na praça. Todos os dias no mesmo horário, lá se reuniam todos para ouvir o andarilho. Com algumas semanas o impacto da novidade foi-se perdendo e o publico diminuindo, até que restou somente a professora Leonor. E eles passaram a se encontrar diariamente, onde trocavam versos, contos e emoções. E a cada nova sessão de encantamento, mais imagens e flashes vinham à cabeça dele. Eram pessoas, sorrisos, frases soltas, casas e prédios, praias e campos que passavam diante de seus olhos sem terem nenhum sentido para ele. A atração entre eles crescia. Leonor reparava em todos os detalhes daquele poeta, seus hábitos de vida, de higiene, e tudo anotava. Ela tentava entender como um homem como ele estava naquela situação, ainda mantendo hábitos como estar sempre com as mãos limpas, unhas bem feitas e rosto sempre limpo e barbeado, apesar das roupas rotas e às vezes empoeiradas dos jardins que cuidava, seu cheiro era sempre um misto de sabonete com o seu próprio odor. Com a aproximação o poeta também foi se interessando pelas coisas dela, sua vida, seus sentimentos e suas experiências, e com isso foi surgindo uma enorme ligação entre eles, conversavam de tudo, e penetravam fundo um no sentimento do outro. Em pouco tempo, muita coisa já nem precisava ser dita, muitas conversas se iniciavam com palavras e terminavam com um simples olhar, eles já se conheciam a ponto de saber como o outro reagiria nas situações, ou o que sentiram com o que estava sendo narrado. Era como se já convivessem há muitos anos, tal a previsibilidade de um sobre o outro. Leonor já há algum tempo não duvidava do lirismo que aquele homem, e reconhecia o valor de suas palavras, e muito mais que isso ela começava a se encantar com os sentimentos e o interior daquele homem, pela natureza humana que se escondiam atrás daquelas palavras ditas com tanto sentimento. Leonor já conseguia ver a riqueza interior e a bondade daquele poeta, pois era algo de contagiante estar perto dele, seus gestos transmitiam paz e bondade. Ficava sempre a impressão que a cada contato ela se tornava uma pessoa melhor. Uma das coisas que o poeta da praça falava muito e que a fazia pensar era: “A felicidade e a bondade, são como perfumes, não se pode distribui-los sem que fique um pouco com quem as distribui”. A princípio lhe pareceu uma frase feita e piegas, mas com o contato constante com o poeta, ela absorveu a verdade da frase e a rigidez de seu coração estava se desfazendo. Em muitas oportunidades ela se surpreendia revendo conceitos de vida e sonhando com as palavras daquele andarilho. Muitas vezes eles se viram, muitas vezes eles viajaram nas palavras, muitas vezes ficaram quietos somente ouvindo as músicas da loja de discos e festejando as coincidências de seus gostos musicais. Eles gostavam de quase tudo que tocava, e bastava que eles se olhassem para que um soubesse se o outro gostava ou não do que tocava. Muitas vezes riam juntos, pois a musica, ou o silencio arrepiava os dois simultaneamente e eles achavam muita graça nisso. O Poeta das flores, já começava a se preocupar com a aparência, procurava caprichar mais nos detalhes, os seus jardins já estavam lhe rendendo algum dinheiro, que ele gastava com gosto em roupas melhores, pois ele queria muito que Leonor aprovasse o seu gosto. Quando Leonor notou as mudanças procurou incentivar, lhe dando de presente algumas peças de roupas e perfumes. Ela também queria vê-lo com uma aparência apresentável para lhe fazer companhia em outros ambientes.