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A
Chegada.
Na terra dos sonhos, havia
um lugar muito especial, com uma natureza exuberante que se
espalhava por vales e montanhas, e num planalto, uma cidade muito
aconchegante, com hábitos de cidade pequena e apesar de reunir uma
população de um bom centro comercial e industrial, ali se mantinham
velhos costumes de pequenas cidades onde todos se conheciam e se
ajudavam. Bem no centro desta charmosa cidade, estava o orgulho de
todos os moradores do lugar, lá havia uma enorme igreja com uma
praça também muito grande, cheia de árvores frondosas, jardins
impecavelmente cuidados, bancos confortáveis de madeira, muitos
pássaros e como muitas praças, lá havia também uma pequena concha
acústica para espetáculos e apresentações musicais. O clima da praça
refletia o espírito da cidade, e das pessoas que ali freqüentavam,
pois podia se ver um ar de tranqüilidade no rosto dos que passavam.
Os motoristas pareciam muito calmos e sem o stress característico
dos grandes centros urbanos. A temperatura sob a sombra das árvores
era sempre agradável, e por uma curiosa característica geográfica,
ali quase não ventava, mas uma constante brisa passava pelo local
sempre dando a impressão que se estava à beira mar, mas era só a
sensação, pois o mar estava a mais de duzentos quilômetros dali. Era
um lugar onde se encontrava muita gente e não havia pedintes,
parecia haver algum tipo de regra que ninguém falava, mas muitos
cumpriam, pois a praça era freqüentada em turnos, havia o horário
das mamães levarem seus filhos a tomar sol, pouco mais tarde
chegavam alguns senhores de idade aposentados, que ficavam horas
ali, mais tarde era a hora dos estudantes que ali se encontravam
antes e depois das aulas, mais tarde um pouco vinham às senhoras que
gostavam de receitas de bolos e dicas de trabalhos manuais. Chegada
a hora dos pássaros, todos saiam dali com receio da sujeira que eles
faziam, mas era coisa bem rápida e em cerca de meia hora se reuniam
ali os jovens enamorados e os que queriam amar. À noitinha eram
substituídos pelos que gostam dos prazeres da noite, que ali se
reuniam antes e depois das suas proezas e bebedeiras. A rotina se
quebrou numa manhã comum como muitas outras, quando a neblina ainda
envolvia tudo no largo da matriz, mal se via o outro lado da praça,
a temperatura ainda estava um pouco fria. E o sol ainda não havia se
mostrado, mas já pintava o céu com cores vivas e quentes. Ali se
alojou um homem que não se sabe de onde veio, nem qual o seu nome,
mas que iria mudar muitas vidas que por ali passavam. O homem era um
andarilho sem parada, parecia um pedinte, mas algumas coisas nele
destoavam, algumas características se confrontavam entre si. Ele
vestia roupas amarrotadas, mas podia-se ver que eram de boa
qualidade, um pouco empoeiras, mas com um corte impecável. Ele
vestia uma calça e um paletó de risca giz, cinza bem escuro e uma
camisa azul Royal, de tecido bem espesso e resistente, seus sapatos
gastos eram sociais e pareciam ser do mais fino couro preto, sem
meias ele caminhava com passos firmes e discretos. Seus olhos eram
misteriosos e hipnóticos, pois neles se viam muita vida e energia,
vida, muita vida e também muitas mágoas, elas estavam todas ali,
brilhando como diamante e sua expressão apesar de serena escondia
muita dor. Seus olhos ao mesmo tempo em que eram doces e transmitiam
paz, quando se fixavam no olhar de alguém, desnudava todas as
emoções de seu par, pois era impossível esconder sentimentos daquele
olhar. Com as crianças era diferente, era um olhar que quase sorria
por si só, bastava um olhar direto de uma criança e todas as suas
feições se modificavam acompanhando seus olhos. Era como se ele se
tornasse um mago capaz de levar as crianças as mais incríveis
fantasias. Seu olhar era altivo e se fixava sempre no horizonte, não
procurava o olhar dos que passavam, mas se algum olhar cruzasse com
o dele, abria um generoso sorriso, mostrando seus dentes muito
brancos e perfeitos, sem dizer uma palavra. Fisicamente era uma
pessoa sem destaque algum, estatura mediana, peso médio, cabelos
castanhos escuros e um pouco grisalho, olhos castanho e rosto bem
comum e idade em torno dos quarenta. Muito quieto, sentou-se à
sombra de uma árvore com uma pequena sacola de plástico com suas
coisas nela, e ficou ali a observar as pessoas do lugar, as crianças
em especial despertavam a sua atenção, e via-se em seu rosto um
discreto sorriso, sempre que uma criança se aproximava. Ninguém
ainda tinha visto alguém como ele, por isso chamou a atenção de
todos. Alguns ficaram com medo e com receio dele ser um maluco
violento que faria mal as pessoas, alguns acharam que era um pedinte
que teve a vida destruída pelos vícios, outros que se aproximaram
dele a ponto de poder olhar em seus olhos, diziam que era um pobre
coitado inofensivo que só precisava de ajuda. Passadas muitas horas,
já era entardecer e a população se preocupou com sua presença
ameaçadora naquela praça, quando ele foi abordado pela polícia da
cidade. Os policiais com muita educação procuraram saber quem era o
sujeito. Depois de muita conversa, os policiais ficaram ainda mais
intrigados do que quando chegaram, pois o visitante falava muito
bem, com um perfeito português, em nenhum momento demonstrou
qualquer tipo de receio dos policias, mas não soube dizer nada a seu
próprio respeito, não sabia quem era, não sabia seu nome, não sabia
de onde vinha, não sabia se tinha família, não sabia se tinha ou não
documentos. O que se comprovou em seguida, quando foi revistado pois
a única coisa que tinha eram alguns trocados no bolso que mal davam
para duas refeições e em sua sacola uma pequena tesoura de cabelos,
um aparelho de barba, algumas roupas intimas, um sabonete e uma
pequena caixa de música. Os policiais não o viram como uma ameaça à
segurança e não o molestaram, apenas o alertaram que ele não poderia
ficar muito tempo ali, muito menos dormir nos bancos da praça, o que
ele espantosamente compreendeu e disse que já estava de saída. Os
homens da lei se foram e ele ficou alguns momentos a pensar, quando
uma senhora de idade que acompanhava tudo a distância, atraída pela
curiosidade se aproximou e começaram a conversar. Impressionada com
a forma que ele se expressava, concluiu que era gente de bem e que
não oferecia risco, e lhe propôs que se ele cuidasse de seu jardim,
ela lhe daria dormida em uma garagem em sua casa. Ele aceitou com
entusiasmo e no dia seguinte antes mesmo do sol nascer ele já estava
cuidando do jardim com todo o seu capricho, demonstrava até amor
pelas plantas, cortou grama, varreu, podou árvores e arbustos,
replantou mudas velhas, trocou terra de vasos, molhou tudo, até
parecia movido a eletricidade de tanta energia que canalizava em
suas atividades, mas quando se depara com uma roseira com um lindo
botão de rosa amarela, ele para e fica por alguns momentos
observando a flor de cor bem viva. Em sua mente surge a imagem de um
par de olhos femininos que transmitem muita doçura e amor e isto o
desconcerta pois parece ser alguma coisa de seu passado. Vasculha
seus pensamentos a procura de algo mais claro e só consegue a imagem
de lindos lábios que, sem som, lhe fazem juras de amor. Estas visões
criam novos sentimentos dentro de seu coração, pois até aquele
momento ele não se preocupava com seu passado, mas depois destas
visões ele já queria saber a sua origem. E a rosa amarela tinha algo
a ver com a vida dele. Refeito da repentina descarga de energia
retoma os afazeres no jardim com o mesmo empenho que começara e em
cerca de meio dia já havia terminado tudo, deixando o jardim tão
bonito que chamou a atenção dos vizinhos. Um deles mais curioso e
interessado o abordou pedindo os serviços de jardineiro. Após alguma
conversa, que deixou claro que ele era um homem sem ambições,
fizeram um trato de trocar o serviço por um bom banho e um prato de
comida, mas somente no dia seguinte, pois aquela praça o chamava,
ele tinha que voltar e passar algumas horas lá. Ele não sabia bem
porque, mas tinha que voltar lá. Era algo que quase o dominava. Mas
mesmo assim o atencioso vizinho permitiu que ele tomasse um banho e
lhe serviu um prato de comida, pois de alguma forma aquele estranho
andarilho, inspirava confiança. De volta a praça, procurou o mesmo
banco do dia anterior, lá se sentou e novamente ficou a observar as
pessoas. Mas desta vez já não provocava tanto espanto, pois estava
mais limpo, o rosto mais descansado e calmo. Seu olhar ia e vinha
para todos os lados, não perdia nenhum movimento, mas as crianças o
atraiam demais, e ele gostava de observa-las ele achava que elas
tinham algo a lhe dizer. Sua observação passiva e os sorrisos que
distribuía às pequenas criaturas foram cativando-as, e aos poucos
algumas foram se aproximando mais e mais. Uma garotinha muito
curiosa se aproxima dele, olha em seus olhos e pergunta seu nome.
Ele não consegue responder que não sabe, pois a emoção
repentinamente o domina e lágrimas correm de seus olhos, sua
respiração se descompassa e o faz pegar na mão da menina. Ela se
assusta e corre para a mãe gritando: --- “Mamãe, ele tá machucado,
ele tá chorando....” A reação da menina chama a atenção de muitas
mães que resolvem se aproximar dele para saber se ele fez algo a
menina, ou se estava realmente machucado. Concluíram que não tinha
nada e que o choro era puramente emocional. Comovidas tentaram
ajudar, conversar, apoiar, e ele sem dizer nada se levantou e saiu
caminhando com toda altivez que lhe era peculiar. O fato foi tão
comentado pelas pessoas que os que o olhavam com receio já começavam
a rever a posição defensiva. Perambulando sem destino pelas ruas da
cidade, em sua mente vêm novas imagens, agora de uma garotinha com
cabelos castanhos claros, um lindo sorriso no rosto e pegando de
suas mãos uma caixinha de música. E neste instante como num
fantástico flash lhe vem a mente a caixinha de musica em sua sacola.
Imediatamente ele a retira da sacola, abre e ouve a música. Os seus
olhos ainda estavam lacrimejando, mas com música o choro vem aos
soluços, e ele tem que se sentar ao meio fio para se recompor, pois
não conseguia nem caminhar. Alguns minutos de puro pranto, e uma
adolescente o vê naquele estado, se comove e se aproxima oferecendo
ajuda, ele sem dizer uma palavra, olha-a bem nos olhos. Seu olhar
penetra fundo na alma dela, ela estende a mão em direção a sua, suas
mãos se tocam e ele beija a mão dela, então ela entende que só
aquele ato já era uma enorme ajuda e nada mais poderia ser feito e o
deixa só com suas emoções. De volta a garagem onde dormiria, refeito
de mais uma lembrança emotiva, ele pede mais uma pousada e naquela
noite o andarilho mal conseguiu dormir, pensando naquele rostinho a
olhá-lo, nas suas lágrimas, a caixa de música, aquilo tudo tinha que
ter uma explicação tinha que estar ligado a sua vida, e fica muito
apreensivo com suas reações, e fica a se perguntar, o que estaria
fazendo-o chorar com tanta facilidade. No dia seguinte, cuida do
novo jardim, com todo o capricho e novamente deixa as plantas
alegres e exuberantes, e recebe a oferta de ficar na garagem o tempo
que quiser, desde que cuide do jardim uma vez por semana, e do
vizinho recebeu a mesma oferta por um banho e um prato de comida
diários. Ele aceitou, pois queria de qualquer forma ficar perto
daquela praça, ele sentia que o destino dele estava ligado aquele
lugar. O tempo foi passando e as pessoas se acostumando com o
andarilho que cuidava de jardins e passava horas, sentado na praça
olhando as pessoas e muitas vezes até cuidava do jardim da praça. E
ele gostava de ver as pessoas admirando o jardim, a praça e tudo que
acontecia ali. Com o costume veio também certa confiança das
pessoas, alguns gostavam de puxar conversa com ele só para ouvi-lo
falar com aquele sotaque diferente que era um misto do sotaque das
cidades do sul com o sotaque paulistano, ele falava as coisas com
uma cadencia quase musical e usava as palavras todas certinhas, sua
voz era perfeitamente audível, até a certa distância, mas muito
suave, doce e meio rouca. Ele ficava sempre no mesmo banco horas e
horas ouvindo a música que tocava na loja de discos que ficava na
praça. Algumas músicas lhe davam tanto prazer e alegria que era
visível em sua expressão, outras tiravam lágrimas de seus olhos e
povoava sua mente com muitas imagens de lugares, pessoas, olhares e
sorrisos, ele não sabia porque nem de onde vinha tudo aquilo, era um
ser essencialmente emocional e muitas coisas o tocavam e se ligavam
a algo dentro dele, que ele não conseguia resgatar e relembrar. Seu
olhar costumava atrair as crianças, e muitas vezes elas o rodeavam,
e ele inventava histórias para distrai-las. A princípio as mães
ficaram receosas, mas logo viram que suas histórias eram puras e
cheias de carinho e não ofereciam qualquer risco à garotada. Suas
historias infantis foram ficando freqüentes, e todos as adoravam.
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